By P.Ghosh | November 4, 2010 11:31 AM AMT
O que é exatamente QE2(Quantitative Easing)?
O que é exatamente QE2(Quantitative Easing)?
Uma nova rodada de flexibilização monetária quantitativa (quantitative easing, ou QE, na sigla em inglês) via Federal Reserve (Fed, banco central americano) era amplamente aguardada na tarde de ontem, bem como uma declaração do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC) sobre a política monetária. Michael Yoshikami, presidente e estrategista-chefe de investimento do YCMNET Advisors, em Walnut Creek, Califórnia, discute o que é exatamente QE, porque ela pode ser necessária e seus potenciais impactos.

IBT: O que é exatamente Quantitative Easing (flexibilização quantitativa, em português) e como ela funciona?
YOSHIKAMI: Quando um banco central muda o foco para a expansão de seu balanço através da compra de títulos de longo prazo em vez de mirar as taxas de juros de curto prazo, isso é quantitative easing (flexibilização quantitativa). Com a QE, os bancos centrais injetam dinheiro no sistema bancário, aumentando a quantidade de reservas em poder dos bancos comerciais. É um jogo de liquidez. Tal aumento pode ocorrer tanto direta quanto indiretamente.
IBT: Como a QE será implementada?
YOSHIKAMI: Por exemplo, um banco central compra ativos (títulos tais como dívida pública, hipotecas e empréstimos comerciais) de bancos comerciais e credita reservas em suas contas como forma de pagamento. Por outro lado, um banco central compra ativos de instituições não-bancárias, e essas instituições, em seguida, depositam o dinheiro apurado junto aos bancos comerciais.
O ponto principal é que o aumento resultante em reservas oferece a oportunidade de os bancos comerciais emprestarem mais. Isso tudo é sobre aumento de liquidez. Ao aumentar a liquidez, a intenção da QE é promover um ambiente de crescimento pelo aumento das expectativas de inflação, redução das taxas reais e criação de inflação de ativos.
IBT: Por que a flexibilização quantitativa é necessária agora?
YOSHIKAMI: Com os juros básicos (Fed Funds) próximos a zero, a QE (flexibilização quantitativa) é talvez a única ferramenta de estímulo disponível ao Fed. Após uma explosão inicial de QE no ano passado, o Fed considerou que era necessário mais.
As questões econômicas que despertaram o fantasma da segunda QE (QE2) são muitas. Os dados recentes sobre desemprego não foram animadores. A taxa de desemprego, de 9,6% em setembro, tem persistido teimosamente a níveis elevados. O aumento do número de empregos tem sido modesto, para dizer o mínimo, e não está claro quando os empregadores começarão a contratar em números significativos novamente.
O relatório de setembro da folha de pagamento nos EUA forneceu mais provas de que a recuperação deu um pequeno salto à frente. A folha de pagamento do setor não-agrícola caiu para 95.000 devido, em parte, à perda de outros 77.000 empregos temporários no censo. A folha de pagamento privada aumentou para 64.000, mas esse ganho foi mais que compensado por uma contração de 76.000 empregos no governo local.
IBT: Como ficam inflação e habitação neste cenário?
YOSHIKAMI: A inflação atual está em 1% (ano após ano), cerca da metade da taxa que o Fed deseja. Em meados de outubro, Bernanke afirmou que, já que a capacidade ociosa da economia não estava diminuindo, "é razoável prever que a inflação subjacente...será inferior à taxa de inflação determinada por algum tempo." O Fed possui uma meta de inflação implícita de 2%. O objetivo é levar a inflação para patamares mais altos.
O IPC (Índice de Preços ao Consumidor) de setembro e os números de venda no varejo refletem tanto a inflação baixa quanto o crescimento econômico mais fraco. Pelo segundo mês consecutivo, o índice core prices (núcleo dos preços, em português,que exclui preços voláteis, especialmente energia e alimentos) não aumentou. O aumento de 0,1% mês a mês em preços ao consumidor era devido à combinação de um crescimento de 0,7% mês a mês em preços de energia e um aumento mês a mês de 0,3% no preço dos alimentos.
A taxa de inflação core anual caiu de 0,9% em agosto para 0,8%, que é a menor taxa desde março de 1961, e bem abaixo da faixa preferida do Fed de 1,5% a 2%. A deflação está à espreita.
Os preços das habitações são ainda outra preocupação. Em geral, o mercado imobiliário dos Estados Unidos permanece em níveis deprimidos, sem estímulos para melhorias no curto prazo.
As vendas de casas já construídas cresceram 7,6% em agosto, mas seguiu-se uma queda de 27% em julho. As vendas de casas novas ficaram estáveis em agosto. A construção de casas (housing starts) surpreendeu positivamente, crescendo 10,5% de 541.000 para 598.000 em julho, mas tanto o índice de casas já construídas quanto o índice de housing starts foram impulsionados pelo setor volátil multi-residencial.
Simplificando, a economia está em dificuldades. Os defensores da QE2 encontram amplas evidências para uma ação monetária drástica.
IBT: Existe desacordo no seio do conselho do Fed com relação à eficácia da QE?
YOSHIKAMI: (Sim). Nem todos concordam com o presidente do Fed que a QE2 se justifica. De acordo com os documentos do Fed, alguns querem "tomar uma atitude logo", enquanto "alguns membros" veem mérito na espera por mais informações antes de tomarem uma decisão e "querem estudar mais detalhadamente o quadro mais eficaz para o acerto e a comunicação de qualquer medida adicional para prover tal estímulo". Outros argumentam que o estímulo somente deveria ser fornecido se "as perspectivas piorarem e as chances de deflação aumentarem substancialmente". Outros advertem que "os benefícios econômicos podem ser pequenos".
O presidente do Fed de Chicago, Charles Evans, destacou o que ele considerou ser uma "armadilha de liquidez" na qual está a economia dos EUA, e adverte que as medidas padrão da QE por si só não são suficientes e que há mais a ser feito. "Em minha opinião, uma política de empréstimo é muito mais apropriada hoje", afirmou Evans, pois " a economia americana é melhor descrita como estando numa autêntica armadilha de liquidez".
Isso significa que as taxas de juros extremamente baixas e altas taxas de poupança em conjunto tornam a política monetária ineficaz em um ambiente de armadilha de liquidez. Evans também sugeriu que o Fed deveria considerar o uso de uma meta temporária de preços em vez de taxas de inflação para convencer as empresas e os consumidores de pararem de economizar e começarem a investir e gastar.
IBT: E sobre a opinião dos outros membros do Fed?
YOSHIKAMI: As mensagens das outras autoridades do Fed têm sido mistas. Eric Rosengren, de Boston, Narayana Kocherlakota, de Minneapolis e Charles Plosser, do Fed da Filadélfia possuem posições diferentes em tudo, da inflação até se uma segunda rodada de QE impulsionaria o crescimento econômico.
Kocherlakota disse que a QE2 teria um impacto mínimo comparado aos 1,7 trilhões de dólares de aquisições anunciadas em março de 2009, porque os mercados atuais parecem estar funcionando melhor do que estavam no ano passado.
Plosser se opõe à compra de ativos agora e afirmou que as tentativas de "fazer ajuste fino" na economia usando QE é uma ameaça à credibilidade do Fed e não vê como mais compras de ativos pelo banco, mesmo que baixem as taxas de juros de longo prazo para 10 ou 20 pontos base, terão muito mais impacto sob as perspectivas de curto prazo para o emprego.
Rosengren, por outro lado, está mostrando apoio, já que a política monetária deve reagir a uma lenta recuperação "vigorosa, criativa, ponderada e persistentemente, enquanto tivermos opções à nossa disposição."
Obviamente, o consenso não existe. Ainda assim, a despeito das diferentes perspectivas, acreditamos que alguma forma de flexibilização quantitativa acontecerá (ou está acontecendo). Os mercados anteciparam isso e muitos acreditam que esta é a razão para a recente recuperação do mercado de ações.
IBT: O que realmente o Fed espera alcançar com a QE2?
YOSHIKAMI: O ponto principal é que eles querem derrotar a deflação. Simples assim. Aqui está como eles pretendem alcançar esse objetivo.
Primeiro, se o Fed compra títulos, os preços poderiam subir e seus rendimentos declinariam. Assim as compras do Fed provavelmente empurrarão levemente para baixo as taxas de juros, impulsionando gastos com itens sensíveis aos juros, como casas.
Segundo, desde que os bancos não ganham muito em reservas, o processo de QE introduz mais reservas nos bancos, que podem potencialmente conceder empréstimos de alto retorno para empresas e famílias. Idealmente, isso manterá as taxas de hipoteca e de cartões de crédito baixas e estimulará investimentos com baixo custo de capital. Os bancos precisam de ajuda, já que os lucros despencaram nos últimos anos.
IBT: Se os bancos tiverem excesso de reservas, eles vão emprestar?
YOSHIKAMI: Eles ainda não o fizeram e pareciam pouco interessados em fazê-lo. A preocupação ainda é quanto à saúde financeira dos potenciais mutuários. As normas de capital reduziram efetivamente a capacidade de alavancagem financeira dos bancos. Mesmo se os bancos estivessem dispostos a emprestar, empresas inseguras quanto aos potenciais clientes no futuro podem não estar interessadas em tomar empréstimo mesmo com as taxas próximas a zero. Se os bancos não emprestarem, o poder da flexibilização quantitativa seria mitigado.
Especialmente importante para a economia é o empréstimo para pequenas empresas. As pequenas empresas representam 65% da rede de novas contratações dos últimos 17 anos. Se a QE2 não for eficaz para o aumento de empregos na pequena empresa, o programa provavelmente terá seu sucesso reduzido.
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