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Estabilidade realça falhas estruturais que barram PIB maior



By Vanessa Stelzer
28 September 2006 @ 03:35 pm EDT

SÃO PAULO - O ciclo de corte do juro básico completa um ano e nem assim tem ajudado a economia brasileira a crescer de forma mais vigorosa. Analistas observam que o ambiente macroeconômico arrumado coloca em evidência problemas estruturais que precisam ser enfrentados para ampliar o fôlego da expansão.

Nesta quinta-feira, o Banco Central engordou a lista de instituições que cortaram a projeção para o Produto Interno Bruto deste ano. O BC agora vê crescimento de 3,5 por cento, em lugar de 4,0 por cento.

Analistas enumeram obstáculos de curto prazo para o Brasil crescer mais, como a taxa de juro real ainda alta e o câmbio valorizado, mas ressaltam que são os problemas estruturais que impedem um impulso sustentável à atividade.

"O crescimento que temos atualmente é modesto. Dá para crescer mais, mas para isso você precisa resolver os entraves", resume Alcides Leite, professor de Mercado Financeiro e Economia Brasileira da Trevisan Escola de Negócios.

O juro básico foi reduzido em 5,5 pontos percentuais desde setembro do ano passado, para 14,25 por cento --o menor patamar desde que a Selic foi criada, em 1999.

A economia brasileira decepcionou no segundo trimestre, com expansão bem abaixo do esperado. Após a divulgação, o mercado começou a cortar suas estimativas para o ano --que saíram de 3,5 por cento em janeiro para 3,09 por cento no relatório Focus desta semana.

"A revisão do PIB era esperada, mas o Banco Central continua atrasado", comentou nesta quinta-feira a economista Débora Nogueira, da Rosenberg & Associados, depois da publicação do Relatório Trimestral de Inflação.

"Assim como 4,0 por cento era uma projeção alta, os atuais 3,5 por cento ainda são elevados."

Nesta semana, o governo também cortou, de 4,5 para 4,0 por cento, a estimativa de crescimento utilizada para projetar as receitas e despesas no Orçamento.

Analistas previam uma recuperação no terceiro trimestre, mas os dados conhecidos até agora sinalizam que a retomada será mais fraca que o imaginado inicialmente.

Para Sandra Utsumi, economista-chefe do Bes Investimentos, a frustração das expectativas salienta os problemas estruturais que o Brasil ainda não resolveu.

"No momento em que você tem uma economia estabilizada, sem inflação alta ou crise internacional, as insuficiências acabam surgindo de forma mais clara", afirma.

A economista lembra que a burocracia para abrir ou fechar um negócio e os custos trabalhistas são maiores do que nos demais países emergentes, o que diminuiu a atratividade para investimentos.

Leite, da Trevisan, acrescenta à burocracia a falta de um ambiente regulatório adequado que incentive o empresário a investir. "Só por meio de investimento você cresce."

Analistas acreditam que a taxa ideal de investimento no país seria em torno de 25 por cento do PIB, frente a 20,1 por cento no segundo trimestre deste ano.

"O déficit nominal do setor público também tem que cair bastante, para que os recursos da poupança sejam direcionados para investimento", completa o professor da Trevisan.

EXEMPLO DA ÁSIA

"Na largada (da análise da economia), o principal fator é que o juro real caiu pouco. No ano passado era de 14 por cento e agora caiu para 10 por cento, 11 por cento. Projetamos 10,8 por cento neste ano, o que é alto," afirma Fabio Silveira, economista-chefe da RC Consultores.

Os economistas reforçam que o juro alto acaba contribuindo para valorizar o real, o que também inibe a competitividade de algumas empresas.

Segundo Rodrigo Bresser-Pereira, sócio da Bresser Asset Management, a receita para o crescimento vem de outros emergentes. "É a receita da Ásia, com taxas de juros normais (mais baixas) e câmbio desvalorizado", afirma.

"Para ter crescimento, precisa ter uma demanda forte... No momento, o governo não está em situação para gastar, os consumidores já expandiram bastante o crédito e o setor externo não é muito promissor, por conta da alta excessiva do real."

A China cresceu mais de 11 por cento no segundo trimestre sobre igual período de 2005. No Chile, país emergente que se assemelha mais ao Brasil, a expansão foi de 4,5 por cento.

Este artigo pertence ao Reuters

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