SÃO PAULO - Momentos de crise financeira costumam provocar vários efeitos colaterais surpreendentes. Um deles está sendo bastante visível agora: há excesso de dinheiro no mercado financeiro, o que provoca algumas distorções de preço, especialmente dos papéis de renda fixa. Com isso, os investimentos nesses papéis têm de ser vistos com cautela redobrada, não pelo risco, mas pela rentabilidade.
Parece surpreendente, mas é razoavelmente simples de explicar. A enorme turbulência bancária de 2008 gerou não apenas um forte movimento de retração dos bancos, mas também tornou profundamente conservadores os investidores que conseguiram defender seu patrimônio (ou parte dele) da crise. A expressão "fuga para a qualidade" nunca foi tão verdadeira.
Um bom exemplo foi a última reunião de acionistas da Berkshire Hathaway, dirigida pelo bilionário Warren Buffet. Ele iniciou os trabalhos exibindo uma imagem insólita nos telões do estádio de Omaha, Nebraska. Mostrou uma ordem de pagamento de pouco mais de mil dólares. Foi o rendimento de uma aplicação financeira de um milhão de dólares.
A mensagem era clara: aplicar dinheiro na renda fixa no ano passado era comparável a colocar dinheiro no colchão. Guardadas as devidas proporções e as diferenças regionais de temperatura e pressão, esse fenômeno pôde ser notado em quase todo o mundo.
O risco de inadimplência fez com que investidores preferissem aplicações que não gerassem nenhuma preocupação, mesmo oferecendo pouco rendimento, e o Brasil não foi uma exceção à regra.
Passado o pior momento da crise, o que se nota agora é uma parcela desses recursos procurando aplicações mais rentáveis, mas sem abrir mão da segurança. Por isso o súbito interesse dos investidores brasileiros por debêntures de boa qualidade.
Puros-sangue corporativos notaram uma forte disputa por seus papéis de renda fixa. O melhor exemplo foi a emissão de títulos da Bradespar, empresa de participações controlada pelo Bradesco. A Bradespar é, simplificadamente, uma carteira de ações da Vale, e mais uma pequena participação da empresa de energia CPFL. Tradução: risco praticamente zero (praticamente porque risco zero não existe).
No início do ano, a Bradespar ofereceu ao mercado debêntures de dois anos que pagavam uma taxa generosa de 125 por cento dos juros de mercado medidos pelo CDI. O interesse foi tanto que houve rateio entre os investidores.
Poucos meses mais tarde, a operadora de telefonia Telemar (Oi) lançou uma captação que destinava-se a vender cerca de 1,6 bilhão de reais em debêntures. Vendeu mais de três bilhões.
Na semana passada, a Bradespar voltou ao mercado lançando 800 milhões de reais em debêntures. Os papéis teriam dois vencimentos: 12 e 24 meses. Os mais curtos prometiam pagar 112 por cento do CDI, e os mais longos pretendiam pagar 115 por cento. A meta da Bradespar era pagar as debêntures anteriores, barateando sua dívida.
O resultado surpreendeu o mercado. As debêntures mais curtas acabaram sendo vendidas por 105 por cento do CDI e as mais longas saíram por 108 por cento. Investidores que lançaram ofertas pelos papéis calibradas pelas expectativas simplesmente não conseguiram subscrever nada.
Vale a pena investir em papéis como esses? Na grande maioria dos casos, a resposta é não, e por dois motivos. O primeiro é a rentabilidade.
Debêntures são valores mobiliários, e sua emissão é escritural, não física. Assim, o investimento tem de ficar custodiado em uma empresa de liquidação e custódia, que pode cobrar até 0,4 por cento do valor de face para manter os registros. Isso entra como custo e reduz a rentabilidade da aplicação.
Na ponta do lápis. Suponha que os juros do CDI sejam de 9,25 por cento ao ano, em linha com a taxa Selic. Um investidor que aplicar 100.000 reais a 105 por cento do CDI terá um retorno de 9,71 por cento ou 9.710 reais. Se ele tiver de pagar 0,4 por cento de custódia (438 reais), seu rendimento cairá para 9 271 reais, ou 9,27 por cento. Assim, a vantagem em relação ao CDI desaparece.
Essa conta só vale se o investidor carregar o papel até o vencimento. Se resolver vender antes, terá de pagar comissões de corretagem, o que reduz ainda mais a rentabilidade.
Há mais um risco. A maioria dos papéis de longo prazo inclui uma opção de venda, conhecida como "put", que garante que o emissor pode resgatar as debêntures antes do vencimento. Além de zerar a rentabilidade de uma parcela do patrimônio que estava rendendo, o resgate antecipado pode submeter o investidor a uma alíquota de Imposto De renda elevada.
Com tudo isso, um investidor sem pressa que tenha 100 ou 200 mil reais disponíveis pode contratar um Certificado de Depósito Bancário (CDB) de um banco obtendo facilmente rentabilidades de 102 ou mesmo 103 por cento dos CDI. Sem riscos de resgate antecipado e sem gastos de custódia nem comissões de corretagem.
* O jornalista Cláudio Gradilone assina a coluna Portfólio para a Reuters; as opiniões expressas são de sua responsabilidade.

Technical analysis for precious metals with major support and resistance levels and recommendations for 18-08-2009

