July 14, 2011 5:03 AM AMT
ENTREVISTA-Bolsa teme impacto "estrutural" de medidas cambiais
ENTREVISTA-Bolsa teme impacto "estrutural" de medidas cambiais
A adoção de medidas mais duras contra operações de estrangeiros com derivativos teria um impacto "estrutural" sobre o mercado de capitais no Brasil e poderia até ser contraproducente na luta do governo contra a queda do dólar, alertou nesta quarta-feira o presidente da BM&FBovespa, Edemir Pinto, em entrevista à Reuters.
Segundo ele, a tentativa do governo de desestimular a venda de dólar futuro pelos investidores estrangeiros somente faria migrar essas operações para o mercado de balcão no exterior, que tem maior possibilidade de alavancagem e, portanto, mais poder de fogo para influenciar a taxa de câmbio.
Edemir mencionou como exemplo as medidas tomadas pelo governo há cerca de uma década no mercado de ações, que incentivaram a migração dos negócios com papéis de empresas brasileiras para os recibos de ações negociados em Nova York (ADRs). Segundo ele, essa liquidez não voltou à bolsa brasileira mesmo após a melhora dos fundamentos do país.
"Se você pegar o volume das ADRs (de empresas brasileiras), hoje negociadas, mais de 60 por cento da liquidez está lá fora", disse. "Nossa preocupação é que isso possa também ocorrer nos derivativos", afirmou o presidente da bolsa.
"Primeiro que ela (migração) é muito difícil de ser revertida. E (também) tem um impacto estrutural sobre o desenvolvimento do mercado de capitais no Brasil."
Na terça-feira, uma fonte da equipe econômica afirmou à Reuters que o governo estuda maneiras de diminuir a aposta dos estrangeiros na valorização do real via derivativos de câmbio negociados na BM&FBovespa.
Segundo Edemir, a bolsa não recebeu nenhuma consulta do governo nesse sentido.
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, mencionara na semana anterior que o governo poderia tomar medidas nos "futuros e derivativos". Nos últimos dias, a posição vendida dos estrangeiros em dólar futuro e cupom cambial (DDI) chegou a superar o recorde de 24 bilhões de dólares.
Não seria a primeira tentativa de desestimular essas operações. Em outubro passado, o governo aumentou de 0,38 para 6 por cento o IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) nas operações de câmbio para formação de margens de garantia.
POLÍTICA CAMBIAL SERIA AFETADA, DIZ BOLSA
Na opinião da bolsa, principal praça de negociações dos contratos futuros de câmbio no Brasil, a migração da liquidez para o mercado internacional ainda encareceria o "hedge" a empresas brasileiras e dificultaria a intervenção do governo no mercado de câmbio.
Ele identifica o mercado de NDF, contratos a termo sem entrega física, e o mercado futuro de real na CME (Chicago) como os principais destinos de uma migração ao exterior.
"Na medida em que a formação de preço se dá onde está a liquidez, a migração da liquidez de derivativos para o exterior acaba inclusive prejudicando a própria eficiência da política cambial do governo, que se caracteriza por intervenções no mercado doméstico."
Edemir não deu estimativas sobre o impacto de possíveis medidas sobre derivativos nas operações da bolsa. Ele afirmou que a bolsa avaliará as metas deste ano após a divulgação do balanço do segundo trimestre, em agosto.
O dólar caiu 0,44 por cento nesta quarta-feira, cotado a 1,574 real no mercado à vista.
A ação da BM&FBovespa teve alta de 2,15 por cento, a 10,00 reais.
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