EM ARTIGO publicado neste espaço, os deputados Regis Fernandes de Oliveira e
Sérgio Barradas Carneiro, autor e relator da PEC 341/09, defenderam a redução do texto
constitucional, sob a alegação de que "a esperança depositada nesse instrumento está
sendo solapada pela ineficácia de suas normas" ("É preciso "enxugar" a Constituição",
"Tendências/Debates", 17/8).
Sob os argumentos de que o Brasil vive um período de tranquilidade e liberdade, que as
instituições funcionam regularmente e a economia flui sem sobressaltos, justificam a
proposta dizendo que a Constituição respondeu a outro momento histórico, pósditadura,
no qual havia necessidade de colocar direitos e políticas públicas no texto
normativo como garantia do pacto social democrático.
A primeira falácia desse raciocínio é desconhecer que a situação atual de tranquilidade e
liberdade é fruto exatamente da garantia dos direitos individuais e sociais garantidos no
texto constitucional e da institucionalidade democrática ali desenhada.
A situação atual é fruto da expansão da cidadania provocada pela inclusão universal no
campo das políticas sociais, dos mecanismos de participação social que criaram nova
arquitetura democrática, possibilitando o controle social da ação governamental.
Desconhecer isso é desconhecer a essência da Constituição de 1988.
A segunda falácia é dizer que "nenhum pacto, por mais importante que seja, é celebrado
para durar eternamente".Ora, parece ser curta a memória dos nobres deputados ao
esquecer as tentativas de sabotar o texto proposto pela Comissão de Sistematização da
Constituinte, com a criação do Centrão.
Desde aquele momento, as forças conservadoras, que sobrevivem até hoje, tentaram
invalidar o pacto democrático que emergiu de um processo constituinte considerado o
mais amplamente representativo da sociedade brasileira.
Foi esse processo que assegurou um texto constitucional que expressa as contradições
dessa sociedade complexa e desigual, mas que, pela primeira vez, não expressou apenas
um projeto elitista de dominação.
A conhecida afirmação de que, com a Constituição de 1988, o Brasil seria ingovernável
é a síntese dessa reação conservadora, que nunca se conformou com os avanços
conquistados pela sociedade civil tanto na universalização das políticas sociais como no
direito à participação política.
O fato de que a Constituição não tenha sido plenamente regulamentada só vem
demonstrar o acerto dos constituintes que optaram por um texto mais abrangente.
Questões fundamentais para o avanço do país e a consolidação democrática estão
pendentes de legislação infraconstitucional.Por exemplo: a definição de normas de
cooperação entre os entes federativos (artigo 23), a iniciativa popular (artigo 14), uma
2 fonte regular de financiamento da saúde (disposições transitórias). Esses são alguns
exemplos de como a reação conservadora tem impossibilitado a evolução do sistema
político brasileiro, e não o contrário, que é a Constituição de 1988 que a impede.
A argumentação de que o mundo evolu iu e, portanto, devemos adequar a Constituição à
nova realidade é outra falácia, pois o texto constitucional continuou a ser atualizado por
meio de emendas e ele não pode responder a conjunturas, mas a um projeto estrutural de
Estado-nação.
Foi exatamente por isso que o país pôde resistir melhor à onda do pensamento
neoliberal e defender seu sistema de proteção social e combate à pobreza, que, hoje, ao
lado dos bancos públicos, representa recursos excepcionais no enfrentamento à crise
econômica, assegurando mercado interno, investimento e inclusão social.
Por fim, o argumento que atribui os problemas de governabilidade à existência do
requisito de maiorias qualificadas para alteração do texto constitucional, propondo
reduzir o quórum à maioria simples, permitindo assim que o Poder Executivo forme
maiorias com maior facilidade, é um atentado à democracia.
Essa proposta é profundamente reacionária e acaba com um dos contrapesos à
avassaladora preponderância do Executivo sobre o Legislativo, que se expressa na
exclusividade da iniciativa de legislação sobre determinadas matérias, por exemplo, no
campo econômico.
Propor a redução da maioria de dois terços para maioria simples, vinda do próprio
Congresso, mostra até onde chegou a capacidade de autodestruição e aviltamento de um
Poder republicano. Mas a intenção é clara: os avanços sociais conseguidos em 1988
seriam facilmente derrubados.
